Lugarzinho muito gostoso de se morar
Marabá,
fui adotado por você, em 1976, naquela época, suas ruas eram de “chão batido” e
a travessia dos rios que te banham, era feita de balsas. A voz estridente do
padeiro era o nosso despertador de todas as manhãs. Transportado em um balaio,
feito de cipó, nas costas, o pão quentinho exalava um cheiro gostoso de “pão
feito na hora”. Ele era pendurado na porta de casa e “ninguém era doido” para comer.
Ser tachado de ladrão, era a maior afronta para qualquer habitante da terra de
Francisco Coelho, naquela época. Depósito de venda de gás de cozinha, só
existia um na Velha Marabá. As famílias Mutran, Almeida, Pinheiro, Bezerra,
entre outras, “ditavam o tom” de sua rotina na economia e na política. Os
sulistas, com ar de desprezo, chamavam você de “terra de índio” e “lugar onde
judas perdeu as botas”, mas a Serra Pelada te fez conhecida mundialmente.
Era
época da temida “Ditadura Militar”, seu prefeito era chamado de Pró-Tempore,
nomeado pelos generais de Brasília. O Tiro de Guerra, onde hoje funciona o
Centro de Saúde Pedro Cavalcante, e o imponente 52º BIS, serviam como ponto de
referência para “manter a ordem pública”, o Exército Brasileiro impunha
respeito. Vi chegar a ponte do Rio Itacaiúnas, construída um pouco abaixo do
balneário mais conhecido da cidade, o perigoso “Pirucaba”, muitas pessoas
morreram afogadas, a correnteza sempre foi muito forte. A presença de “de
menor” em festas “era coisa de outro mundo”. Corri várias vezes para me
esconder da temida “patrulha” da polícia. Como hoje, você tinha um lado
perverso e cruel, os crimes de pistolagem. Naquela época, a disputa era por
causa de terras e dos castanhais, hoje, se mata pessoas por causa das drogas.
Você já ocupou a triste posição da cidade mais violenta do Brasil, mesmo assim,
gosto do seu jeito matuto de ser.
O
bairro da Cidade Nova havia sido criado, o Amapá era bem mais antigo, pois lá
ficava o saudoso “Porto das Canoinhas” e, um pouquinho mais acima, o “Porto da
Balsa”. O Colégio Santa Teresinha era a referência em educação. Os filhos de
família rica estudavam no colégio das freiras. Elas eram muito respeitadas,
moleque não “fazia graça” com as irmãs, não. A Nova Marabá estava apenas em seu
início, o mais conhecido mesmo era o Porto do São Félix, originado a partir da
rampa onde a balsa atracava todos os dias, cortando o caudaloso Rio Tocantins.
Suas estradas vicinais eram os rios e as “varedas”, como falava nossa gente sem
estudo. Seu único hospital público era o SESP, onde hoje funciona o HMI. O
comércio predominante era os depósitos de compra e venda da castanha-do-pará e
as mercearias. Vi chegar a Ponte do Rio Tocantins, construída pela Companhia Vale
do Rio Doce, para levar nosso minério. Os locais onde hoje ficam as cidades de
Parauapebas e Curionópolis tudo era Marabá. Tomaram da gente.
No fim da safra, ao
retornar dos castanhais, os homens iam encontrar as mulheres no cabaré do
“Canela Fina” ou na extinta “Casa de Tábua”, na Cidade Nova. A Praia do
Tucunaré passava praticamente despercebida. O DNR era um dos maiores geradores
de emprego e o caminhão do INCRA levava os colonos para ocupar as margens da
recém-criada Rodovia Transamazônica. A COBAL vendia alimentos bem mais barato
para os homens do campo. Seu primeiro transporte coletivo tinha o nome de “Urbano
Santa Lúcia”, andava apenas pelas ruas da Cidade Nova. Todo mundo tinha medo
dos temidos “Bate Pau” da Polícia Civil, eram todos nomeados pelos políticos de
Belém. Hoje, você possui shopping, aeroporto, bancos, supermercados, praças, ruas
asfaltadas e orla construída, mas ainda mantenho, guardado em minha memória de
menino, seu jeitinho meigo de Marabá do século passado. Sabes por que? Velha ou
Nova, tu és a minha querida Marabá.




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