Moinho dos ventos
Aquela noite se repetia, há mais de vinte anos. Era véspera
de Natal, estávamos reunidos em minha residência na Rua da Esquerda, felizes
com mais uma comemoração de fim de ano. Ao som de seresteiros nordestinos,
sentado em uma cadeira branca, silencioso e já meio tonto com tantos goles de
cerveja, fui despertado por um barulho ensurdecedor de um carro vindo em alta
velocidade. Irritado, fui até a porta da rua, porém aquele automóvel que me roubou
aqueles momentos de devaneios, já havia dobrado a esquina da Rua da Ladeira.
Quando retornei, as pessoas conversavam calmamente em
grupinhos, espalhados pela sala, enternecidos pela música e pelo papo gostoso
que ali rolava. Me sentei no quintal de casa. Olhando a minha volta, tive a
visão interrompida por altos prédios que ultimamente invadiram o bairro Moinho
dos ventos. Entre eles, pintadas de cinza ou amarelo abóbora, erguiam-se
enormes torres de telefonia celular. A presença daqueles gigantes de ferro, me
deixava preocupado com a possibilidade de contrair alguma doença, provocada por
algum tipo de radiação vinda delas já que eram muitas. Ao longe, cruzando o
céu, um enorme avião se preparava para pousar, trazendo os homens de negócios
da cidade.
De repente, me encontro em 1980. Começo a me lembrar das
ruas de terra batida daquele bairro residencial. Quando chovia, eu saia para o
terreiro para sentir o cheiro gostoso de terra molhada. A maioria das casas era
feita de madeira, barro ou raramente de tijolos. Tudo era simples, as pessoas
eram pacatas e raramente ocorria um homicídio. As diversões de final de semana dos jovens, aconteciam no campo de futebol, pulando de um ingazeiro sobre o rio
Itacaiúnas ou comendo manga verde com sal e pimenta do reino nas mangueiras espalhadas
pelas ruas do Moinho dos ventos. Hoje, não reconheço mais aquele bairro que
tanto me deixou saudades. Será que a busca do homem por uma qualidade de vida
melhor, vale a pena? Não sei. Eu ainda prefiro o meu antigo Moinho dos ventos.
Talvez por ser nascido e criado na roça, um lugar ótimo para se viver.
(SOUZA, Pedro
Ribeiro. Intimismo-reflexões existenciais)


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