Morrer é "passar dessa para uma melhor” mesmo?

Vivo me preparando para lidar com a morte, é ela quem mais me tira o sono nesse mundo violento. Não consigo conviver com a ideia de que um dia morrerei. “Será que morrer é passar dessa para uma melhor mesmo?” Acho que não, pois só em saber que a morte dói, isso já me preocupa bastante. Essa história de que através da morte a nossa alma vai para o paraíso, não acredito muito nela, não. Se isso fosse verdade, Deus não teria deixado as mortes tão doloridas como as provocadas por facadas, tiros e afogamentos. A morte lenta e por esquartejamento não quero nem pensar. Existem também aquelas em que as pessoas são queimadas ou enterradas vivas. Não consigo imaginar o quanto deve ser dramático e desesperador.
Você já se imaginou envolvido em um acidente, tendo sofrido vários traumatismos pelo corpo, quando o médico chega para as pessoas e calmamente, diz: “Infelizmente o paciente está muito machucado, ele vai morrer?” A dor e o desespero devem ser imensos. É nesse momento que eu acho que “o homem lá de cima bobeou”. O ato de morrer deveria ser um momento mágico, algo sublime e recheado de prazer. Não uma coisa pavorosa, horrenda e que causa medo em todo mundo.

O fato da medicina não saber determinar quando a pessoa realmente está morta, também me preocupa bastante. O ser humano é considerado clinicamente morto quando o cérebro para de funcionar. Veja bem, ele é “considerado morto”. Isso quer dizer que ela não determina quando a pessoa está morta, pois o cérebro não representa todo o nosso corpo. Mesmo porque os rins, pulmão e o coração podem paralisar suas atividades momentaneamente, logo em seguida voltam a funcionar e o indivíduo não falece. Alguns desses órgãos podem até ser trocados por outros que a vida continua.
Há relatos de casos em que alguém é considerado morto, porque não existem indícios de respiração, está sendo velado, mas logo em seguida o mesmo se levanta do caixão como se nada tivesse acontecido. Sabemos notícias de exumação em que os corpos não se encontravam na posição deixada pela família no momento do sepultamento, ou seja, as pessoas recuperaram a consciência, mas morreram asfixiadas.

Quando virem o meu caixão passar, tenham certeza de que ali vai o corpo de um homem inconformado, mas como eu sei que a morte é um fato inevitável, todos nós teremos que morrer um dia, vivo procurando enganar meu ego, dizendo para ele que morrer deve ser algo muito gostoso, pois ninguém, depois de morto e enterrado, voltou para relatar a suposta experiência de “passar dessa para uma melhor”. Ele me responde sarcasticamente: “pois morra você, prefiro continuar vivinho da silva”.
(SOUZA, Pedro Ribeiro. Intimismo-Reflexões Existenciais. Pág 54.2005.Adaptado)

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