Os Cantos de Galo

Uma chuva fina insistia em cair naquela noite, o início da madrugada marcava o fim de um dia estafante de trabalho. Ao deitar, Divico tentava adormecer, mas, ao longe, o primeiro canto de galo afastou a tranquilidade de sua alcova. Após uns infindáveis 15 minutos, rolando na cama, outro galo cantou mais perto. A tranquilidade trazia o canto de galo para dentro de seu quarto. Os minutos voavam e ele começava a pensar nos outros galos que ainda faltavam iniciar a sessão de canto de todas as noites.
O canto do galo do vizinho ecoou mais forte. Dava a impressão de que ele estava deitado ao lado de Divico. Indignado, suplicava a Deus, pedindo uma saída para deixar de ouvir a serenata de todas as noites. Várias vezes, se levantou e foi ao banheiro, pensando nas horas de sono perdido. Tomou água, ligou a tv, mas a programação não o ajudava a esquecer os cantos de galo que tanto o atormentavam.
Deitou-se novamente, ouvindo ainda a voz do primeiro canto de galo, formando um dueto com o galo seguinte. Entrecantando, em poucos segundos, havia um coral na cabeça de “Seu Dico”, como era conhecido. O barulho continuado da chuva chegava, em altos decibéis, aos seus ouvidos. Nesse instante, ele percebeu que o travesseiro duro, a chuva caindo e os cantos de galo consumiam sem piedade suas horas de sono. Em seguida, adormeceu. No dia seguinte, ainda sonolento, estava quase atrasado para o trabalho, mas no trajeto, houve um tempo para pensar nos gritos de calo que lhe roubaram o sono da noite passada. 
                  (SOUZA, Pedro Ribeiro. 2004)

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