Os lados da vida

O caixão era simples, fora doado por um grande empresário da cidade. Ela estava ali, morta, sozinha, velada no salão paroquial da igreja. Estava acompanhada apenas do marido que conversava com alguns curiosos do lado de fora da catedral. Perguntei a causa da morte, ele triste me respondeu que uma hepatite havia vitimado sua mulher. Fui até o caixão, fitei-o silenciosamente por alguns instantes, mas fiquei impressionado com o barulho, vindo da praça daquele bairro residencial.
Naquela noite vários “mauricinhos” competiam para escolher o som mais potente. No bar em frente à igreja, várias pessoas tomavam cerveja, ouvindo a música de um DVD. Nos banquinhos, casais de namorados trocavam beijos de língua, olhando as crianças pulando no parquinho, como se nada de anormal estivesse acontecendo. As cenas da praça me trouxeram uma tremenda revolta, fiquei com uma vontade louca de gritar, chamando a atenção de todos e mostrá-los que ali estava sendo velado o corpo de um ser humano, merecedor de um mínimo de respeito.
Em seguida, indignado, afastei-me do local comentando o ocorrido com um amigo. Ele apresentando uma calma de quem não tem nada a ver com os problemas dos outros, falou: “Olha! Quando Deus deu a vida aos seres humanos, deixou uma relação polarizada, pois nós vivemos em constante conflito entre matéria e espírito, bem e mal, céu e terra, alegria e tristeza”. Continuamos andando, ele foi falando que aquela reação de indiferença das pessoas é normal. A menos que o morto seja uma pessoa rica, famoso, familiar ou amigo. Só dessa forma o mesmo passaria a ser merecedor da atenção de todos. Alguns até choram sem nunca ter conhecido o defunto pessoalmente. Eu, caminhando em silêncio, ouvindo apenas o barulho da praça, me perguntando se eu era diferente dos outros ou estava conversando com a pessoa errada.

                 (SOUZA, Pedro Ribeiro, 2004)

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