Aborto clandestino é um drama para mais de meio milhão de mulheres no Brasil
“O aborto
não precisa ser traumático para a mulher. O que é traumático não é o
procedimento, mas a ilegalidade”, disse Rebeca Mendes.
Rebeca Mendes, de 31
anos. EFE/Sebastião Moreira
Mais de 500 mil mulheres abortam
por ano clandestinamente no Brasil, onde a discussão sobre o problema se
acentuou após a paulistana Rebeca Mendes levantar a voz por se ver obrigada a
viajar para a Colômbia a fim de interromper voluntariamente sua gravidez de
forma legal. Mãe solteira de dois filhos e aos 31 anos, ela se transformou na
imagem da luta a favor da descriminalização do aborto no
país, hoje permitido somente em casos de estupro, de risco de morte para a mãe
ou se o feto apresentar anencefalia.
“Fiquei grávida em novembro e, quando descobri, foi muito perturbador.
Fiquei o ano passado todo tentando marcar consultas com ginecologistas para
mudar meu anticoncepcional. Se o sistema público de saúde tivesse me atendido a
tempo, não teria passado por isso. Esta foi a primeira vez que o Estado falhou
comigo”, contou Rebeca à Agência Efe. Após descobrir que estava grávida, ela
entrou com um pedido no Superior Tribunal Federal (STF) para poder abortar legalmente,
mas a solicitação não foi analisada, e foi por isso que ela decidiu viajar à
Colômbia, onde conseguiu interromper a gestação dentro das leis locais.
Desde 2006, a Corte Constitucional da Colômbia permite o aborto em
três situações: quando põe em risco a saúde física e mental da mulher, em caso
de estupro ou incesto, ou quando há uma má-formação incompatível com a vida. “Eu
hoje posso contar que fui tratada com dignidade e que um aborto não precisa ser traumático para a
mulher. O que é traumático não é o procedimento, mas a ilegalidade“,
disse Rebeca.
O caso de Rebeca levou o PSOL e o instituto de bioética Anis a
apresentarem uma ação no STF, que
neste mês convocou especialistas e organizações para um debate público, em
pleno ano eleitoral, sobre a descriminalização do aborto até a 12ª semana de
gestação. Cerca de 503 mil mulheres entre
18 e 40 anos interromperam gestações em 2015, de acordo com as estatísticas da
Anis, referência global no estudo dos direitos reprodutivos femininos, embora
algumas organizações estimem que o número passe de 1 milhão.
Apesar disso, a grande maioria dos brasileiros (59%)
se opõe a mudanças na legislação para facilitar o aborto, enquanto 58% consideram
que a mulher tem que sofrer punições e até ir para a prisão por interromper a
gravidez, segundo uma pesquisa publicada recentemente. “Se todas as mulheres
que fizeram um aborto estivessem presas, o Brasil teria 4,7 milhões de
presidiárias“, disse a antropóloga e coordenadora da Anis,
Débora Diniz.
Segundo a pesquisadora, metade das mulheres que se submeteram a um
aborto ilegal o fizeram através de remédios adquiridos
na internet ou no mercado negro, como é o caso da enfermeira Lúcia, de 32 anos.
Moradora de uma comunidade no litoral de São Paulo, Lúcia, cuja identidade foi
preservada, revelou à Efe que comprou duas pílulas abortivas de
um vendedor ilegal por R$ 500. Após o uso do remédio, teve que ir para um
hospital por causa de uma forte hemorragia e
ficou internada por mais de 24 horas.
“Hoje tenho certeza de que foi um grande risco e
que poderia ter morrido, mas o Estado e a sociedade têm que entender que não é
porque existe uma lei contra que as mulheres deixarão de abortar”, afirmou. Lúcia
é uma das 250 mil mulheres que tiveram que ser internadas após um aborto clandestino em
2015.
Em sua alegação ao STF, Débora afirmou que quem enfrenta os maiores
riscos com este tipo de aborto são as mulheres “mais jovens,
mais pobres, negras e
provenientes de áreas menos favorecidas do
país”. Apesar da proibição, as maiores cidades do país contam com clínicas que
realizam o procedimento em troca de preços inacessíveis para as mulheres mais
pobres, de R$ 5 mil a R$ 10 mil.
Sonia, pesquisadora de uma grande universidade de São Paulo e que pediu para
não ter a identidade revelada, recorreu a uma clínica ilegal para interromper
sua gravidez cirurgicamente, o que lhe custou o salário de um mês.
“Me lembro até hoje da angústia das
semanas anteriores. Foi uma angústia, primeiro pela gravidez, depois pela
dificuldade do processo. Para mim, o acesso não foi tão simples, mas não era
absolutamente pobre e consegui pagar”, disse. Para ela, as mulheres nesta
situação têm medo não do procedimento em si, mas “da clandestinidade do
tema e do que pode acontecer”.
Fonte:
Agência EFE



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