Ex-autoridade do Vaticano diz que papa deveria renunciar por crise de abusos sexuais
Papa Francisco em Dublin REUTERS/Stefano Rellandini
A BORDO DO AVIÃO PAPAL - O Papa Francisco disse no domingo que não responderá a um ex-membro do
alto escalão do Vaticano que o acusou de ter conhecimento de alegações de
abusos sexuais de um cardeal norte-americano há anos e pediu a renúncia do
pontífice, em um ataque inédito ao pontífice.
Francisco,
que conversou com repórteres no avião voltando de uma viagem a Dublin, disse em
tom altivo que o comunicado que contém as acusações “fala por si”. Em um
comunicado bombástico de 11 páginas entregue a veículos de mídia católicos
conservadores durante a visita do papa à Irlanda, o arcebispo Carlo Maria
Viganò acusou uma longa lista de autoridades antigas e atuais do Vaticano e da
igreja dos Estados Unidos de acobertarem o caso do cardeal Theodore McCarrick,
que renunciou no mês passado caído em desgraça.
Arcebispo italiano Carlo Maria Viganò faz
acusações contra o Papa Francisco
Com uma
linguagem notavelmente ríspida, Viganò disse que os supostos acobertamentos na
igreja estão fazendo-a se parecer com “uma conspiração de silêncio não tão
diferente daquela que prevalece na máfia”. “O papa Francisco pediu
repetidamente uma transparência total na Igreja”, disse Viganò, que já criticou
o líder católico antes. “Neste momento extremamente dramático para a igreja
mundial, ele precisa reconhecer seus erros e, conforme o princípio proclamado
de tolerância zero, o papa Francisco deve ser o primeiro a dar um bom exemplo a
cardeais e bispos que acobertaram os abusos de McCarrick e renunciar junto com
todos eles”, propôs Viganò.
O
comunicado, que não continha documentos que o sustentassem, foi o golpe mais
recente na credibilidade da Igreja Católica dos EUA. Quase duas semanas atrás
um grande júri da Pensilvânia divulgou as descobertas da maior investigação da
história sobre abusos sexuais na igreja norte-americana, revelando que 301
padres do Estado abusaram sexualmente de menores de idade ao longo dos últimos
70 anos. No voo de volta de Dublin, repórteres indagaram o papa a respeito do
comunicado, que foi publicado pelo National Catholic Register e vários veículos
de mídia conservadores dos EUA e da Itália.
O cardeal Theodore McCarrick durante uma cerimônia
em South Bend, em Indianápolis
“Direi
sinceramente que preciso dizer isto a você (o repórter) e todos vocês que estão
interessados: leiam o documento atentamente e julguem por si mesmos”,
respondeu. “Não direi
uma palavra sobre isso. Acho que o comunicado fala por si, e vocês têm
habilidade jornalística suficiente para tirar suas próprias conclusões”. Em seu
texto, Viganò disse que informou Francisco em junho de 2013, pouco após sua
eleição, sobre as acusações contra McCarrick.
Viganò, que
foi o enviado do Vaticano a Washington de 2011 a 2016, também disse ter
informado às principais autoridades do Vaticano desde 2006 que McCarrick era
suspeito de abusar de seminaristas adultos enquanto era bispo em duas dioceses
de Nova Jersey entre 1981 e 2001. Ele disse que nunca recebeu uma resposta ao
seu memorando de 2006.
Em sua
declaração, Viganò também critico o que chamou de “redes homossexuais presentes
na igreja” — a palavra “homossexual” aparece 18 vezes, enquanto a palavra “criança”
aparece apenas duas vezes, em ambos os casos nos títulos dos documentos da
igreja que Viganó cita. Francisco
pediu perdão no domingo durante sua visita à Irlanda pelo pelos sentimentos de
“escândalo e traição” das vítimas dos casos de exploração sexual de crianças
por parte de padres católicos no país.
Fonte: Agência
Reuters




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